quarta-feira, 1 de outubro de 2014

CONSCIENCIANDO

Naquele tempo os dias eram sombrios como a noite, frios e escuros. A paz já não reinava havia muito tempo, até a chegada daquele homem ao povoado.
Tóta era um homem franzino, grisalho e corcunda. Veio pela trilha e, caminhando madrugada adentro, chegou silenciosamente com o romper da aurora. Nunca se ouvira falar naquele homem que, mesmo sem rumo certo, já tinha seu destino traçado.  
Quando o sol nasceu, Tóta estendeu sua mão e, levantando seu rosto ao céu, recebeu de Deus toda inspiração que precisava. Por trás dos cabelos espalhados no rosto por causa do vento, seus pequenos olhos azuis miravam dias de mais esperança no horizonte.
Então, com voz cálida pede:
- Óh! Grande arquiteto universal, criador de tudo quando há! Permita o merecimento da clareza na consciência para esse povo!
Fez-se um silêncio profundo.
Ao seu redor foram chegando os anciães do povoado. Como de costume quando da chegada de um visitante, traziam consigo cuias, incensos, frutos, sementes e flores... mas para Tóta haviam trazido algo mais: suas crenças e olhares quase que vazios, em busca de respostas.
Conduziram-no até a mais sábia dos anciães, que aguardava numa casa ali perto. Entreolharam-se. Uma energia circulou trazendo um sentimento de que se conheciam há muito tempo...
Tóta percebeu que o que causava a desunião daquelas pessoas é que ninguém mais enxergava de muito perto, ninguém. Todos se chocavam quando se aproximavam muito e viviam machucados, tentando manter a distância que não podiam prever.
A anciã pergunta, irrompendo o silêncio:
- Como podemos ter nos curar?
    Ora, algumas pessoas procuravam os anciães pedindo previsões, mas mesmo tendo recebido inspirações nas suas palavras, alguma força permeava o povoado impedindo que o povoado se enxergasse de perto.
Após fitar silenciosamente o horizonte por um tempo, Tóta respondeu:
    - Donde hay amor, hay dolor...
    E seguiu pela trilha quente e iluminada.



Nenhum comentário:

Postar um comentário