quarta-feira, 5 de outubro de 2016

"(...) Às vezes amar é só um cafuné, um telefonema inesperado, um gesto cuidadoso. Peixe? Sal, azeite e fogo. Não tem erro. Massa? Manjericão e tomate. Mas daí a gente pensa: manjo! E, claro, é um erro enorme. (...) Mas insistimos. Difícil como fazer pão. Tem que ter paciência e saber que tem uma hora, um processo, que não depende de nós, que é lá com ele e sua vida íntima. E que não é garantido. Mais ainda, é preciso saber que, ainda que tudo dê certo, pão pronto e saboroso, nossa fome não finda nele. (...) Amar é como cozinhar, ainda, porque se precisa dos ingredientes certos. Mas o certo não é, necessariamente, o óbvio. (...) Bom, os ingredientes têm que combinar, outro insiste e eu concordo. Mas combinar é o quê? Sal com sal? Mas e o porco com abacaxi? O salmão com maracujá? O mais gostoso não é justamente quando a boca se surpreende num sem saber de gostos? Eu acho. Por isso gosto tanto de beijar. E comer. Por causa do inesperado. (...) Isso de se cozinhar é preciso ter vontade, como amar. E aceitar as limitações. E improvisar o omelete quando não há nada em casa a não ser temperos, ovo e um restinho de queijo."

(Publicado por Feministas na Cozinha)